Cannabis feminina: mulheres na luta pelo uso medicinal

A Cannabis é considerada uma planta feminina. Um dos motivos é que são as plantas fêmeas as responsáveis pelos “buds”, a flor da planta, matéria-prima para a extração do óleo e de outros produtos à base da erva que tratam centenas de distúrbios, transtornos e doenças.

Porém, a Cannabis é feminina não só por uma questão biológica, mas também político-social.

No Brasil, as mulheres vêm encabeçando movimentos importantes para a construção de políticas públicas que contemplem a Cannabis como alternativa para o tratamento de doenças.

Essas mulheres estão à frente de associações, coletivos, startups, empresas, consultórios, estudos científicos e muito mais, provando todos os dias que a Cannabis é feminina.

Marco brasileiro da Cannabis no Brasil é uma menina

Foi o caso de uma menina que abriu jurisprudência no Brasil para que o canabidiol (CBD) fosse usado como medicamento.

Em 2014, Anny Fischer, uma garotinha de Brasília com uma síndrome rara, chamada CDKL5, que causa graves convulsões, conseguiu na Justiça, após a luta de sua mãe e do seu pai, o direito de importar o remédio à base de Cannabis.

Sua história ganhou grande repercussão e foi retratada no filme Ilegal.

O caso é considerado um marco da Cannabis medicinal no país e abriu jurisprudência para que outras famílias conseguissem importar o medicamento.

Para homenagear a trajetória de Anny e sua contribuição com a causa, há uma campanha para batizar o Projeto de Lei 399/15 com seu nome.

O PL quer autorizar o plantio de Cannabis por empresas, governo e associações de pacientes no Brasil.

Cepa carrega nome de menina norte-americana

Outra figura importante para a popularização da Cannabis medicinal também é uma menina. A norte-americana Charlotte Figi enfrentou crises convulsivas desde os primeiros três meses de idade por conta da Síndrome de Dravet.

Aos cinco anos, enfrentando 300 crises epiléticas por semana e padecendo diante dos efeitos colaterais dos remédios alopáticos, a pequena Charlotte passou a tomar óleo rico em CBD depois de uma pesquisa intensa de sua mãe, Paige Figi, sobre alternativas terapêuticas para sua filha.

Foi quando encontrou numa espécie de Cannabis com baixo teor de THC e alto teor de CBD o composto que sua filha precisava para cessar as crises e desmamar dos remédios alopáticos.

A popularização da história foi tão grande, que a cepa que a pequena usava foi batizada com seu nome: Charlotte’s Web. Em 2013, a história de Figi ganhou o mundo quando a CNN fez o documentário “Weed”.

Charlotte morreu em abril de 2020, aos 13 anos, em decorrência de uma convulsão atípica da sua doença.

Porém, mesmo o nome de Anny e Charlotte figurando como um dos marcos da cannabis medicinal no Brasil e no mundo, há muitas outras mulheres envolvidas nessa luta e que fizeram do amor pelos seus filhos e filhas a melhor ferramenta de combate ao preconceito.

Mulheres, mães, ativismo: princípio da cannabis feminina

Enquanto a discussão corria no âmbito judicial, mães de crianças com diversos tipos de patologia se reuniam para conseguir acesso ao óleo. Essas mulheres passaram a figurar na linha de frente da Marcha da Maconha em diversas cidades.

Juntamente com sua família, essas mulheres encaravam com seus filhos e filhas em cadeiras de rodas os holofotes de uma imprensa ainda intrigada com o assunto e a opinião pública ainda trabalhada no obscurantismo em torno da planta. E assim protestavam, e ainda protestam, pelo direito de tratarem as crianças com Cannabis.

Foi então que o movimento ganhou ares de ativismo. Essas e outras mulheres passaram a encabeçar associações importantes que ajudam outras mães a conseguirem o óleo e até mesmo aprenderem a cultivar.

Entre essas associações estão a Apepi, da Margarete Brito, a Cultive, da Cidinha, a Liga Canábica, que tem como vice-presidente, Sheila Dantas, além de representantes reconhecidas, como Solange Suzin, esposa do Seu Ivo (que tem seu caso bastante conhecido no Brasil), entre tantas outras.

Outros grupos de mulheres criaram movimentos independentes pelo país para conseguir o direito de plantar, como o caso do coletivo Mãesind, no Nordeste, formado por mães de crianças com diversos problemas de saúde.

Suas histórias foram retratadas no documentário Mãesconheiras (2020). Depois de muita luta, todas conseguiram o HC para plantarem Cannabis em casa e fazerem o próprio óleo para tratar as crianças.

E são essas mulheres as responsáveis pela mudança cultural que o país vem passando quando o assunto é Cannabis.

Todo o cuidado, amor, dedicação e união dessas mulheres, que trocam saberes conquistados com estudos muitas vezes na “raça”, começam a ser reconhecidos em maior escala, contribuindo diretamente para o avanço das discussões sobre o uso terapêutico da Cannabis no Brasil.

Mulheres nos negócios e na indústria

Mas não é só no ativismo canábico que as mulheres são protagonistas. Na indústria e no mundo corporativo, o papel da mulher também é de destaque.

De acordo com a comunidade digital Cannabis Feminist, na indústria da Cannabis norte-americana estão a maior concentração em porcentagem de mulheres executivas em comparação a outras indústrias.

O empreendedorismo feminino canábico ganhou tanto espaço que a SXSW Conference & Festivals 2020 (adiada por conta da pandemia), abriu o painel Mulheres na Cannabis Meet Up, que teria a presença da feminista de cannabis Jessica Assaf, da Cannabis Feminist, para discutir o papel da mulher no segmento industrial.

No mundo corporativo da Cannabis, as mulheres são presidentas, vice-presidentas, CEOs, coordenadoras entre tantos outros cargos de destaque dentro das empresas, levando Cannabis para a vida das pessoas.

É o caso da Indeov, que tem a Camila Teixeira como CEO e fundadora e 90% do seu quadro de funcionários e funcionárias composto por mulheres.

Portanto, é correto afirmar que a Cannabis é feminina.

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